domingo, 26 de Julho de 2009

Would you erase me?

Em Eternal Sunshine of the Spotless Mind (2004), as memórias são canais ambíguos que transportam sempre consigo uma bênção e uma maldição. Se, por um lado, as memórias positivas nos inspiram a enfrentar novos desafios, as memórias negativas podem ser castrantes. É devido ao seu carácter subjectivo que as memórias modelam as nossas percepções sobre a realidade e sobre as nossas relações e, inerentemente, vivemos sempre em função das mesmas. É numa sequência não cronológica da relação entre Joel Barish (Jim Carrey) e Clementine Kruczynski (Kate Winslet), que após a submissão de ambos a uma intervenção cirúrgica ao cérebro para que se pudessem esquecer, visitamos os recantos claustrofóbicos, infantis e reconfortantes de uma relação com oscilações permanentes, consumidos pela dor da perda, na esperança contraditória de regressar ao plano consciente, o único lugar onde todos os espectros do passado adquirem um reconhecimento vital. Existe sempre a alternativa de fechar os olhos, mas um dia destes teremos de voltar a abri-los. Em momentos particulares de esmagadora inocência, Eternal Sunshine of the Spotless Mind é o filme das metáforas de um amor esquecido revisitadas na casa à beira-mar que se desmorona na plenitude do arrependimento conduzindo ao abismo derradeiro que desaba no esquecimento eterno.

3 comentários:

Dyas disse...

Un espléndido relato y un film inolvidable...

Inês Guedes disse...

AH, muito bem, muito bem.
Parecia que estava a ler uma critica de um grande escritor de cinema.
Quando vi o filme não me bateu como esperava.
Quando voltei a vê-lo, percebi que era magnifico.
Hoje em dia, é uma referência quando sinto que preciso de esquecer algo e alguem. Normalmente as minhas conversas incluem o "se existisse a maquina do eternal..." :) Ainda ontem o disse!
Quanto ao Closer, sim, concordo efectivamente com o comentário que colocaste. Quanto às relações, o que te posso dizer da minha experiencia é que primeiro vem a paixão e depois vem o comodismo. Amor? Desacreditei-me. Mas tu sabes como eu sou... Tenho estas fases estranhas.
Beijinhos

RBM disse...

Sim, um amor que desabou no esquecimento eterno. Mas o mais enternecedor do filme na minha opinião, é a inevitabilidade. Quantos de nós também não desejaríamos apagar alguém? Mas como o filme tão bem demonstra só teríamos vontade de apagar aquelas, cuja lembrança é dolorosa demais para ser suportada numa rotina. Eles eram inevitáveis, apagaram-se um ao outro, e depois encontram-se como desconhecidos e a inevitabilidade volta a juntá-los. O que leva à seguinte conclusão: há coisas que nem o esquecimento pleno pode afastar do nosso percurso de vida.