domingo, 28 de Setembro de 2008

O Amor Acontece

Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente. Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido. Sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações.

[O Primo Basílio (1878), Eça de Queiroz]

Being with you gets me this way...




In a way I know my heart is waking up
As all the walls come tumbling down

sábado, 27 de Setembro de 2008

A Minha Geração

A minha geração, já se calou, já se perdeu, já amuou,
já se cansou, desapareceu, ou então casou, ou então mudou
ou então morreu: já se acabou.

A minha geração de hedonistas e de ateus, de anti-clubistas,
de anarquistas, deprimidos e de artistas e de autistas
estatelou-se docemente contra o céu.

A minha geração ironizou o coração, alimentou a confusão
brincou às mil revoluções amando gestos e protestos e canções,
pelo seu estilo controverso.

A minha geração, só se comove com excessos, com hecatombes,
com acessos de bruta cólera, de morte, de miséria, de mentiras,
de reflexos da sua funda castração.

A minha geração é a herdeira do silêncio,
dos grandes paizinhos do céu,
da indecência, do abuso.
E um belo dia fez-se à vida,
na cegueira do comércio.

A minha geração é toda a minha solidão, é flor da minha ausência, sonho vão,
aparição, presságio, fogo de artifício, toda vício, toda boca
e pouca coisa na mão.

[JP Simões - 1970 (Retrato)]

Podemos pertencer à geração herdeira do silêncio, mas adormecemos todas as noites numa almofada com rádio.

quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

My Life's A Mess.

- “Roma está em chamas.”, disse ele enquanto voltava a encher o copo, “e aqui estou eu banhado num rio de gajas...”.

- “Lá vem este...”, pensou ela. Mais uma crítica bebeda sobre como tudo era melhor no passado. E sobre nós, coitados, nascidos tarde demais para ver os Stones em qualquer lado ou snifar a boa coca da Studio 54. Praticamente perdemos tudo que valha a pena viver para ver. E a pior parte foi que ela concordou com ele.

- “Aqui estamos nós”, pensou ela, “no fim do Mundo, no fim da civilização ocidental, e estamos todos tão desesperados por sentir algo, qualquer coisa, que caímos facilmente uns nos outros, e fodemos os nossos caminhos ao longo do fim dos dias.

Don't let us get sick
Don't let us get old
Don't let us get stupid, alright?
Just make us be brave
And make us play nice
And let us be together tonight

terça-feira, 9 de Setembro de 2008

Message of Hope.


It was a creed written into the founding documents that declared the destiny of a nation.
Yes we can.
It was whispered by slaves and abolitionists as they blazed a trail toward freedom.
Yes we can.
It was sung by immigrants as they struck out from distant shores and pioneers who pushed westward against an unforgiving wilderness.
Yes we can.
It was the call of workers who organized; women who reached for the ballots; a President who chose the moon as our new frontier; and a King who took us to the mountaintop and pointed the way to the Promised Land.
Yes we can to justice and equality.
Yes we can to opportunity and prosperity.
Yes we can heal this nation.
Yes we can repair this world.
Yes we can.
We know the battle ahead will be long, but always remember that no matter what obstacles stand in our way, nothing can stand in the way of the power of millions of voices calling for change. We have been told we cannot do this by a chorus of cynics...they will only grow louder and more dissonant. We've been asked to pause for a reality check. We've been warned against offering the people of this nation false hope. But in the unlikely story that is America, there has never been anything false about hope.
Now the hopes of the little girl who goes to a crumbling school in Dillon are the same as the dreams of the boy who learns on the streets of LA; we will remember that there is something happening in America; that we are not as divided as our politics suggests; that we are one people; we are one nation; and together, we will begin the next great chapter in the American story with three words that will ring from coast to coast; from sea to shining sea.
Yes. We. Can.

[Dedicado à Patrícia que, sempre que pensa em mim, lembra-se do Barack Obama e de grandes causas.]

domingo, 7 de Setembro de 2008

Radio.

YOU ARE A RADIO STAR.

I'VE KILLED YOU, BABY.

[Video.]

sábado, 6 de Setembro de 2008

Momento.



[Californication (2007), Ep. 1 - T.1]

quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

20 anos.

Uma Longa Quinta-Feira de Aniversário (2008), Joana

terça-feira, 2 de Setembro de 2008

Hoje fui acordada assim.

É tudo uma questão de palavras regadas de álcool num shot de sentimentos que te queima a garganta e se esvai na alma deixando um ardor a saudade, a raiva, a amor/ódio, que os olhos derramam deixando um rasto de passado que abre caminhos na face que tempo algum irá apagar, mas que a esperança de um futuro onde andas de mão dada com o que sempre sonhaste, espreita nas palavras de quem sempre esteve no teu presente. Anónimo.

[De alguém que ultimamente tem sido tudo, menos um anónimo para mim.]

segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

Michael.

Michael.
Meu caro Michael, claro que és tu. Só te podiam mandar a ti, só confiam em ti. Sei que é longe e que ias trabalhar, mas espera. Espera. Ouve o que tenho a dizer porque isto não é uma crise, uma recaída ou uma grande asneira. Imploro-te, Michael, imploro-te. Faz de conta que isto não é loucura, porque isto não é apenas loucura. Há duas semanas saí do edifício, ia a atravessar a 6th Avenue. Tinha um carro à espera e 38 minutos para chegar ao aeroporto. Uma secretária frenética apontava tudo o que eu ia ditando. De repente, ela desata a gritar e apercebi-me de que estávamos no meio da rua, que o semáforo tinha ficado verde e que vinha um muro de trânsito na nossa direcção. Fiquei paralisado, imóvel. Fui dominado pela sensação avassaladora de estar coberto por uma película. Tinha película no cabelo, na cara. Era uma espécie de verniz, uma camada. Primeiro, pensei: “Meu Deus, sei o que isto é. É uma espécie de líquido amniótico. Estou imerso em secundinas, rompi a crisálida, renasci!” Mas depois o trânsito, a debandada, os carros e camiões, as buzinas, os gritos... Comecei a pensar: “Não, nada disso. Eu não renasci. Isto é uma ilusão tola de renovação que acontece no momento que antecede a morte.” E depois: “Não, não é nada disso.” Olhei para o edifício e tive um momento espantoso de lucidez. Apercebi-me, Michael, de que tinha saído, não pelas portas da Kenner, Bach & Ledeen, não pelos portais da nossa vasta e poderosa firma jurídica, mas do ânus de um organismo cuja única função é excretar o veneno, o amílico, o desfolhante necessário a organismos maiores e poderosos para destruírem o milagre da Humanidade! E que eu estivera coberto por uma pátina de merda durante a maior parte da minha vida! O cheiro e o fedor levariam o resto da minha vida a desparecer. Sabes o que fiz? Respirei bem fundo e pus essa ideia de parte. Guardei-a. Disse para mim próprio: “Por mais óbvio que isto seja, por muito intensa que seja a sensação, por muita fé que tenha na veracidade do que presenciei hoje, deve esperar. Tem de resistir ao passar do tempo.” E, Michael, esse tempo chegou.

[Michael Clayton (2007), Tony Gilroy]