Lever sans réveil, avec le soleil
Sans bruit, sans angoisse, la journée se passe
Repasser, poussière, y a toujours à faire
Repas solitaire, en point de repère
La maison si nette, qu'elle en est suspecte
Comme tous ces endroits où l'on ne vit pas
Les êtres ont cédés, perdu la bagarre
Les choses ont gagné, c'est leur territoire
Le temps qui nous casse, ne la change pas
Les vivants se fanent, mais les ombres pas
Tout va, tout fonctionne, sans but sans pourquoi
D'hiver en automne, ni fièvre ni froid
Elle apprend dans la presse à scandale
La vie des autres qui s'étale
Mais finalement de moins pire en banal
Elle finira par trouver ça normal
Elle met du vieux pain sur son balcon
Pour attirer les moineaux les pigeons
Des crèmes et des bains qui font la peau douce
Mais ça fait bien loin que personne ne la touche
Des mois des années sans personne à aimer
Et jour après jour l'oubli de l'amour
Ses rêves et désirs si sages, si possible
Sans cri, sans délires sans inadmissible
Sur dix ou vingt pages de photos banales
Bilan sans mystères d'années sans lumière
As minhas últimas semanas fazem-me lembrar tanto esta música. Ouvi-a, pela primeira vez, quando tinha 16 anos e nunca mais a esqueci porque, de alguma forma, identificava-me com ela e cada vez sinto mais que as pessoas que me rodeiam deviam ouvir esta música para se verem ao espelho. Identificava-me. Mas o que mudou? Nada. As imagens, os filmes, as músicas e os livros continuam a ser os mesmos. A canção tem razão: o tempo não muda nada; as pessoas passam – entram e saiem – mas as sombras permanecem. Incluo-me naquele grupo de pessoas que são capazes de sorrir ao fim daqueles dias que doem, que magoam e destroem. Mas estes sorrisos são só para aqueles com quem partilho bons momentos. Estes, se me conhecem, sabem que sou sensível e verdadeira, que não tenho medo de chorar. No fundo, eu sempre soube sonhar à minha maneira, sempre imaginei outros e falei sozinha. Sempre dominei a minha própria ilusão. Enquanto a realidade é feita de histórias inacabadas e problemas para resolver, no mundo ideal há quase sempre finais felizes. As vidas paralelas são o melhor remédio para quem sofre na pele a angústia e o barulho atormentador da existência. Neste mundo sem lágrimas, sem delírios, sem lugar para o inadmissível, facilmente se esquece o amor. Se eu quero a luz, sei que apenas terei o pôr-do-Sol, porque a noite irá cair em breve. Sou a editora da minha imagem, a realizadora do meu filme, a compositora da minha música e a escritora do meu livro. E nos dias em que tudo me parece insignificante, não volto atrás no que já está feito. A vida permanece intacta e verdadeira, cheia de incorrecções. Não fico presa às memórias do passado. Apenas deixo o guião aberto para ser folheado, não para ser lido.
[Comecei a escrever para encontrar a nitidez e a clareza que preciso. Mas o texto continua confuso e turvo.]