Escrevo ao som de uma intervenção sombria e própria da crueldade resgatada pelo passar do anos. Invejo-me ao encerro dos impulsos magnéticos do órgão daquele funeral decorado com o meu choro compulsivo, que se esgueira por entre os lábios gretados e adormece no vestido preto, rasgado por joelhos quebrados. Sopro as velas que iluminam a igreja construída para sucumbir ao dilúvio enganado pela brancura envelhecida e retalhada na nitidez da escuridão. Estendo-me de pé em frente ao soldado que, do alto do desconhecimento reconhecido e da sua paz enfurecida, canta todos os medos convenientes agrafados à vida. Escuto aquela voz que desliza por entre as ruínas da multidão trazida para cicratizar o peito aberto e infectado por aquela negação continuada do nunca. Enterro a cólera que, em tempos, me infestou a mente com uma pobreza sentimental doentia, que agora desperta quase todos os espaços preenchidos condenados ao vazio do esquecimento. Ergo-me de mão pregada à ausência das crenças convocadas à anarquia dos sentidos para absorver o fôlego da criação dos esboços confessados pelo pintor solitário nascido para fitar a vida ao contrário. Confunde, assim, a brancura da presença resistente e cómoda daquele corpo ossudo preso à exaustão de uma ironia perpétua. O dia de hoje é grito rasgado do fundo da liberdade e da consciência egoísta que se prolonga a partir dos meus olhos e das minhas mãos, preso ao carvão destinado a morrer de desaparecimento angustiado na fraqueza da madeira.Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008
A Lover's Funeral
Escrevo ao som de uma intervenção sombria e própria da crueldade resgatada pelo passar do anos. Invejo-me ao encerro dos impulsos magnéticos do órgão daquele funeral decorado com o meu choro compulsivo, que se esgueira por entre os lábios gretados e adormece no vestido preto, rasgado por joelhos quebrados. Sopro as velas que iluminam a igreja construída para sucumbir ao dilúvio enganado pela brancura envelhecida e retalhada na nitidez da escuridão. Estendo-me de pé em frente ao soldado que, do alto do desconhecimento reconhecido e da sua paz enfurecida, canta todos os medos convenientes agrafados à vida. Escuto aquela voz que desliza por entre as ruínas da multidão trazida para cicratizar o peito aberto e infectado por aquela negação continuada do nunca. Enterro a cólera que, em tempos, me infestou a mente com uma pobreza sentimental doentia, que agora desperta quase todos os espaços preenchidos condenados ao vazio do esquecimento. Ergo-me de mão pregada à ausência das crenças convocadas à anarquia dos sentidos para absorver o fôlego da criação dos esboços confessados pelo pintor solitário nascido para fitar a vida ao contrário. Confunde, assim, a brancura da presença resistente e cómoda daquele corpo ossudo preso à exaustão de uma ironia perpétua. O dia de hoje é grito rasgado do fundo da liberdade e da consciência egoísta que se prolonga a partir dos meus olhos e das minhas mãos, preso ao carvão destinado a morrer de desaparecimento angustiado na fraqueza da madeira.
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6 comentários:
"Enterro a cólera que, em tempos, me infestou a mente com uma pobreza sentimental doentia, que agora desperta quase todos os espaços preenchidos condenados ao vazio do esquecimento."
Perfeito, adorei a conjugação das ideias, e da pura realidade nelas implicitas.
:)
um beijo*
Texto fantástico, sem dúvida. Gosto como descreves as emoções e os sentimentos. Adorei :DD *
"Ergo-me de mão pregada à ausência das crenças convocadas à anarquia dos sentidos para absorver o fôlego da criação dos esboços confessados pelo pintor solitário nascido para fitar a vida ao contrário"
Texto excelente, com uma carga intensa, muito bom.
ps: tenho um blog novinho, da la uma voltinha, posso adicionar o teu? ;)
não pude deixar de comentar este post! é de uma complexidade tão intensa que me fez andar às voltas para extrair o seu sumo significado! são textos assim que apetecem, que nos "obrigam" a pensar, que nos fazem tomar o caminho mais longo para chegarmos à meta!
ADOREI! :D
um beijinho e continua a proporcionar-nos leituras a este nível tão sublime***
LOL!!! Onde é que eu já vi isto?
Olha, não vistas vestidos pretos... podes ficar como eu, o mal é começar: a seguir vem pintar os olhos, os lábios, as unhas, e começam a chamar-te nomes feios na rua... :)
Mas pronto, como és gaja, parte disto conheces...
P. S. Um click provar-te-á que não me estou a queixar de alguma orientação sexual... é mais existencial... :)=
muito profundo :)
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